Segunda edição do evento, realizado no teatro do Sesi-SP, na capital paulista, reuniu atletas, gestores e especialistas do esporte
Por: Alex de Souza e Lúcia Rodrigues, Sesi-Sp / Fiesp
21/03/202510:35- atualizado às 14:21 em 21/03/2025
Temas como liderança feminina, ressignificação da masculinidade, aspectos emocionais da prática esportiva em mulheres e as barreiras que elas enfrentam nas modalidades que disputam foram debatidos na segunda edição do Mulheres no Esporte, evento realizado na terça-feira (18/3), no teatro do Sesi-SP, na capital paulista.
O evento reuniu gestores, treinadores, atletas do Sesi-SP, gerentes regionais, gerentes executivos, superintendência e demais gestores da entidade, como coordenadores e orientadores de Qualidade de Vida, além de especialistas.
O presidente da Fiesp e do Sesi-SP, Josué Gomes da Silva, exaltou a força feminina, defendeu a paridade e igualdade entre homens e mulheres. “Nossa meta é ter 50% de atletas femininas e masculinos no Sesi-SP, o que é muito relevante. Já estamos em 47%, muito por conta do esporte de rendimento, mas no esporte em geral já estamos em torno de 50%, uma meta que foi alcançada graças ao compromisso do Sesi-SP com a igualdade de gênero”, disse.
Alexandre Pflug, superintendente do Sesi-SP, assegurou que a meta de 50% deve ser alcançada até o final desse ano. Ele destacou que ser atleta não é fácil porque é necessário renunciar a muitas coisas em prol da disciplina e dos treinamentos.
Débora Viana, gerente executiva de Cultura do Sesi-SP, Silvia Simoni, gerente regional do Sesi AE Carvalho, e Aline Silva, coordenadora de Qualidade de Vida do Sesi-SP, abordaram no primeiro painel da manhã, (exclusivo para mulheres) as questões sobre a liderança feminina na entidade. Elas citaram as dificuldades no início da carreira num mundo predominantemente masculino.
“Precisamos acreditar no nosso potencial e entender que, muitas vezes, o caminho será árduo, mas não menos importante”, disse Débora Viana.
Foto: Ayrton Vignola/Fiesp
Aline Silva, afirmou que, por ser mulher e negra, a situação foi ainda mais difícil. Ela citou a expressão “teto de vidro”, metáfora usada para representar uma barreira invisível que impede que um determinado grupo demográfico (geralmente aplicado a mulheres) ultrapasse um certo nível na hierarquia de instituições, sejam elas do setor privado, público ou mesmo movimentos sociais e políticos. “Meu teto de vidro é duplo, porque sou uma mulher negra, mas isso nunca me desanimou, ao contrário”, disse.
Ao apresentar a Gerência de Esporte e Lazer (GEL) em números, no segundo painel, Rodrigo Leal, supervisor de esporte do Sesi-SP, mostrou que, dos três cargos de supervisor, um é ocupado por mulher. Dos 24 profissionais que atuam na GEL, 11 são mulheres e atualmente, 1/3 dos postos de coordenação é ocupado por mulheres.
“Em janeiro de 2024, tínhamos 32 profissionais mulheres. Terminamos 2024, com 62 mulheres no Sesi Esporte. Houve um aumento de 62,5% contratação de treinadoras. De 24 profissionais, terminamos 2024 com 39 treinadoras”, afirmou Leal.
Márcia Nogueira, especialista em Vida Saudável do Sesi-SP, lembrou que não foi um caminho fácil. “Esse espaço da mulher no esporte foi uma conquista, não nos foi dado, tomamos na raça e com muita luta”, afirmou.
Para contextualizar, ela lembrou que o Artigo 54 do decreto-lei 3.199 de 1941 proibiu as brasileiras de praticar esportes socialmente considerados masculinos por décadas, entre eles, o futebol.
Foto: Ayrton Vignola/Fiesp
Dayane Santos, especialista em Esporte do Sesi-SP, contou que a primeira edição dos Jogos Olímpicos (Atenas, 1896) foi realizada apenas com atletas do sexo masculino. A presença das mulheres só ocorreu quatro anos depois, nos Jogos Olímpicos de Paris (1900), quando elas representaram 2,2% do total de atletas: eram 975 homens e apenas 22 mulheres.
No terceiro painel que debateu o papel do esporte na construção das masculinidades, o antropólogo Renato Noguera explicou que masculinidade na perspectiva do senso comum é frequentemente associada a características de dominação, de destemor, de provedor, de competição e de agressividade. Mas, segundo ele, pertencer ao sexo masculino não implica ser detentor de tais características.
Em relação à masculinidade forte, Noguera disse que é um conceito que pode ser entendido como uma postura segura, sem violência ou agressão baseada no respeito às relações. “No entanto, o conceito de masculinidade é socialmente construído e pode variar de acordo com o contexto e a classe social”, concluiu Noguera.
Para a antropóloga Isabela Venturoza, que trabalha com o tema há 12 anos, existe uma relação muito próxima entre masculinidade e violência contra as mulheres. Ela defende a necessidade de esforços para desfazer essa relação. “A violência contra as mulheres é um problema social, real e mesmo com Lei Maria da Penha isso permanece fortemente”, afirmou Isabela.
Foto: Ayrton Vignola/Fiesp
2154. Esse número poderia representar qualquer coisa, mas se trata de um ano. O ano em que, se a sociedade continuar no ritmo em que está, a paridade de gênero será alcançada no mundo. Os dados do Fórum Econômico Mundial (FEM) apenas comprovam o que é facilmente verificável no dia a dia: a igualdade entre homens e mulheres ainda é uma realidade distante.
Trata-se de um contrassenso, uma vez que a maioria da população brasileira, 52%, é composta por mulheres. Elas, que de acordo com o IBGE, já lideram 49% dos lares. E o que dizer delas no esporte? Para exemplificar, na última edição dos Jogos Olímpicos as mulheres eram 55% da delegação brasileira. E das 20 medalhas conquistadas, 12 vieram delas. As de ouro, delas também.
Mas os bons resultados, dentro ou fora do esporte, não são alcançados sem um alto preço. No painel que tratou dos impactos da carga mental para o desempenho esportivo das mulheres, mediado pela gerente regional do Sesi-SP, Alexandra Miamoto, uma informação alarmante: 30% das mulheres que praticam esporte profissionalmente assumem sofrer de depressão leve ou moderada.
Para a atleta de polo aquático do Sesi-SP, Duda Estevão, a pressão exercida sobre as mulheres é enorme e difere bastante quando comparada à prática esportiva entre os homens.
“Ainda há diferenças. A mulher sofre a pressão de modo muito particular, como, por exemplo, treinar ou competir durante o ciclo menstrual. Sem contar as semanas que antecedem uma competição. Para nós é mais difícil. No jogo, tudo passa, mas sempre é difícil”, desabafou.
Foto: Everton Amaro/Fiesp
Todo atleta também sofre com as lesões físicas decorrentes do esforço, na maioria das vezes, repetitivo. A jornalista Mia Lopes, CEO da Afro Esporte, disse ser fácil verificar as lesões externas, que são visíveis a todos, mas lembrou que “a camada emocional é invisível”.
Ela fez referência à frase que muitas ouvem no dia a dia, de que a mulher costuma “equilibrar muitos pratos”, e afirmou ser uma ideia a ser evitada. “É preciso parar de romantizar essa situação, de que a mulher é capaz de fazer tudo. Se não dá conta de tudo, está tudo bem”, argumentou.
Contar com uma rede de apoio, especialmente dos homens foi um dos pontos levantados pela ex-atleta de voleibol sentado do Sesi-SP, Mara Souza.
“Mudar a mentalidade para que o homem entenda as necessidades das mulheres é essencial. Sem rede de apoio, fica difícil até ser mãe”, disse ela, que atualmente é especialista em Esporte do Sesi-SP.
As barreiras não estão apenas na prática esportiva, mas também permeiam a gestão. No painel que abordou essa temática, mediado pela coordenadora de desenvolvimento do Sesi-SP, Jaqueline França, as dificuldades para que a mulher se firme foram elencadas pelas participantes.
Foto: Everton Amaro/Fiesp
“Em algumas situações, para ser validada ou até mesmo ouvida, a mulher precisa se posicionar de modo mais firme, o que acaba até criando um mal-entendido”, explicou a coordenadora de desenvolvimento do Sesi-SP, Luciene Reis.
Para Mirela Cagliari, que também trabalha como coordenadora de desenvolvimento na instituição, a mulher ocupa muitos papéis. “E elas devem acreditar que podem fazer tudo tão bem o quanto queiram”, disse.
O cenário global mostra que ainda há barreiras para mulheres na liderança. De acordo com a consultora esportiva Paula Korsakas, as empresas e instituições ainda refletem muito do que ocorre na sociedade. “Muito importante o Sesi-SP discutir isso dentro da sua casa, e com esse público. Essa causa não é apenas das mulheres, mas de todos nós”, concluiu.