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 Por: Emanuel Galdino, Jéssica Teles e Karina Costa, Núcleo de Comunicação
29/03/2019 11:41 - atualizado às 17:57 em 12/04/2019

Dedicada aos estudos, atenta, acolhedora e de sorriso fácil e contagiante, Valéria dos Santos, de 14 anos, é uma estudante que adora as aulas de inglês, ouvir música e nadar na piscina do SESI Osasco aos finais de semana. Nessa mesma instituição, de segunda a sexta, ela cursa o 8ª ano e costuma sair pelos amplos pátios na hora do intervalo para respirar um ar puro, olhar a vida abaixo do sol ou papear muito com os amigos. Tanto adultos como crianças podem ser prejulgados pelas características que saltam aos olhos em um primeiro contato, e não significa definir a essência de ninguém. Com Valéria isso não é diferente. Em um olhar inicial, percebe-se seu estilo fashionista, com cabelos encaracolados e mechas roxas, que é muito vaidosa, já que seus colares e acessórios a denunciam, e que precisa de uma cadeira de rodas para fazer seus tão amados passeios.

Valéria, assim como outros 4.970 alunos com deficiência, transtornos e altas habilidades da rede SESI de Ensino, tem a sorte de estar em uma escola inclusiva. Antes do Brasil instituir a sua Lei de Inclusão (nº 13.146, de 2015) e da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (2008) ser aprovada no Congresso Nacional, o SESI-SP já realizava ações e capacitações de seus professores a respeito do tema. Em 2011, uma área específica de Educação Inclusiva foi estruturada e, desde então, vem promovendo a valorização da diversidade no ambiente escolar e oferecendo a essas crianças o direito à formação de qualidade.

Valéria, a estudante sorridente

 

Presente nas 154 escolas do SESI no Estado de São Paulo, as diretrizes da Educação Inclusiva orientam a postura dos profissionais e possíveis modificações curriculares e de metodologia, as ações que devem ser realizadas para minimizar o preconceito e a discriminação e os processos que eliminam as barreiras sociais e ambientais e proporcionam equidade de direitos, deveres e oportunidades a esses jovens. De acordo com Soraia Romano, supervisora técnico educacional do SESI-SP e uma das responsáveis por estruturar a área na instituição em 2007, o sistema de formação dos profissionais que atuam com o tema vem evoluindo ao longo do tempo, em um processo constante de aprendizado.

Nesta evolução, a sociedade passou de uma abordagem pautada no modelo médico, que entende a deficiência como uma doença que requer tratamento e, portanto, segrega os indivíduos em instituições, para adotar o modelo social, que considera a deficiência, mas compreende os fatores ambientais e psicossociais. No SESI-SP, por exemplo, os impedimentos que caracterizam a deficiência não são considerados como incapacidade para aprender. O que pode impedir esse processo, segundo Soraia, são as próprias barreiras ambientais, atitudinais e do indivíduo em seu contexto familiar e de comunidade. “Não trabalhamos com as dificuldades e sim com as habilidades e competências. Somos guiados sempre por duas perguntas: O que impede o aluno de participar? O que o impede de aprender?”, declara Soraia.

 O SESI-SP trabalha, principalmente, aspectos sobre o pertencimento desse aluno na escola e na sociedade e como desenvolver a sua autonomia. Não é raro ocorrerem eventos e ações de sensibilização dos pais e da comunidade. Além de uma equipe multidisciplinar que estrutura todas as diretrizes para a inclusão, os alunos com deficiência, transtornos e altas habilidades podem contar com o apoio de até seis outros profissionais na escola: um facilitador dentro de sala de aula, um auxiliar de inclusão, intérprete de libras, professor de libras, fonoaudiólogo e psicólogo educacionais.

Soraia acredita que a negação e o luto dos pais em aceitar a deficiência do filho, incluindo a demora em procurar o sistema de saúde e receber o diagnóstico, ainda é um agente que dificulta e acaba atrasando a plena inserção desse indivíduo na vida escolar. Apesar de tudo, reconhece que seu trabalho pode sim mudar vidas. “Tenho uma ex-aluna que hoje é pedagoga. Eu a conheci uma menina que não falava nada. Ela se desenvolveu no SESI e foi para a faculdade. Esses são os resultados que motivam a continuar o meu trabalho”, afirma.

Reconhecido na comunidade acadêmica como uma rede escolar inclusiva, o SESI-SP já foi premiado em congressos da área e até já passou sua expertise para o Sistema Único de Saúde (SUS), em parceria com a Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, faz transferência tecnológica do seu modelo de inclusão escolar para diversos municípios do Estado de São Paulo. Por meio de convênio entre instituições, as escolas particulares também podem adotar essas diretrizes.   

A cada ano, no dia 14 de abril, a instituição reserva a data para uma reflexão sobre a Luta para a Educação Inclusiva. Além de promover ações de debate sobre o tema, a proposta é sempre incluir e disseminar o conhecimento.

 

Antes de tudo, profissionais

 

O mesmo senso de oportunidade e de promoção à diversidade é exercido na contratação de profissionais que vão atuar na casa, nas mais diversas áreas que o SESI-SP atende, desde o setor administrativo e educacional até o esporte, saúde, cultura e responsabilidade social. Todo esse comprometimento com a inclusão já foi até reconhecido e o SESI-SP ganhou em 2018 o Prêmio Melhores Empresas para Trabalhadores com Deficiência, organizado pela Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência do Estado de São Paulo, em parceria com a I.Social, uma consultoria de soluções para inclusão social.

“O prêmio é bem criterioso. Na inscrição, eles pedem para desenharmos todas as nossas práticas, da seleção, gestão da pessoa com deficiência dentro da equipe, até a integração dela, ou seja, a inclusão efetiva, e como ela pode se desenvolver. A segunda etapa é a validação das práticas pelos auditores”, revela Andrea de Albuquerque, analista de Recursos Humanos do SESI-SP e que encabeça o processo de seleção e recrutamento de pessoas com deficiência (PcD) na instituição.

Uma das principais frases referentes à cultura de inclusão, e atribuída a diferentes pensadores, diz: “Diversidade é Convidar para a festa, Inclusão é chamar para dançar”. E é justamente nesse espírito que Andrea conduz os processos de inclusão. Ela própria é pessoa com deficiência e acredita que não adianta apenas contratar esse profissional para tê-lo na lista de colaboradores, é preciso incluí-lo ao time de forma integral.

Andrea fala de inclusão no Programa Olhar Especial (TV Osasco) - confira a entrevista aqui

 

Segundo Andrea, “a mistura é a riqueza da inclusão”. Neste sentido, os profissionais, das mais variadas formações, são alocados nas equipes já existentes, sem nenhum tipo de segregação ou criação de grupos específicos. Também são evitados processos como a sensibilização ou qualquer tipo de evento onde apenas o colaborador com deficiência possa frequentar. A ideia é sempre deixá-lo incluído, com autonomia e pertencente ao espaço, como qualquer outro empregado do SESI-SP, sem regalias ou particularidades.

Sobre a relação entre colegas de trabalho, Andrea acredita que o preconceito muitas vezes pode ser medo do desconhecido. “O nosso papel é quebrar o constrangimento. Perguntar para a pessoa: posso te ajudar? A pessoa sempre vai dar o limite dela. Eu mesma todos os dias aprendo uma coisa. Sempre pergunto se ele precisa de alguma adaptação no ambiente ou nas ferramentas de trabalho. Mesmo assim, há acertos que a gente faz no meio do processo”, complementa.

Para Andrea, liderar o projeto de inclusão da pessoa com deficiência no ambiente de trabalho do SESI-SP às vezes é um exercício de distanciamento. “A minha questão com diversidade é em todos os pilares, de etnia, de mulheres na liderança e LGBTQ+. Você não precisa fazer parte dessas minorias para lutar em favor disso. Então eu procuro esquecer a minha deficiência e sempre pensar no outro, no programa e não nas minhas questões. Mas eu acho que é mais o conhecimento que a minha deficiência me trouxe do que a própria deficiência em si. Se uma ação nossa mudar a vida de uma pessoa, todo o esforço vai valer a pena”, revela.

Andrea (ao fundo) em ação com os guarda-vidas do SESI-SP

 

Entre os mais de 9 mil colaboradores, o SESI-SP tem, atualmente, 376 profissionais com deficiência, um aumento de mais de 184% em relação ao ano de 2016. Isso representa investimento na área, novos processos de recrutamento e que essas pessoas estão enxergando o SESI-SP, graças a adoção de novos métodos de divulgação, como uma boa empresa para o desenvolvimento da carreira.

 

O esporte pode transformar vidas

 

Uma parcela dos colaboradores com deficiência da instituição é composta por seus paratletas. Ao todo são 104, que competem em cinco modalidades paralímpicas:  atletismo, badminton, bocha, goalball e vôlei sentado. O investimento nesta categoria começou ainda em 2009, junto à criação do Programa Esporte de Formação e Rendimento, e vem rendendo frutos desde então.

Os paratletas treinam nas unidades do SESI de Suzano e Santo André, ambientes com total infraestrutura, física e profissional, para que esses esportistas possam dar o seu melhor em busca de resultados. Durante os Jogos Paralímpicos Rio 2016, o SESI-SP foi a entidade com o maior número de atletas convocados. Referência na categoria e um dos primeiros a investir massivamente para o seu desenvolvimento no País, recebeu, anos atrás, a visita de Judith Heumann, Assessora Especial para Assuntos de Pessoas com Deficiência dos Estados Unidos, que queria entender como a instituição lida com a questão da inclusão por meio do Esporte.

É inegável que ser esportista no Brasil é um ato de superação. Para os paratletas, esse processo é ainda mais evidente, já que requer muitas vezes a

quebra de barreiras sociais. Muitos passam a enxergar o seu papel como cidadão apenas depois de estar inserido no contexto do esporte. É uma tarefa constante de, primeiro, entender o seu eu; segundo, admitir que tudo é possível; terceiro, estar aberto e se permitir passar por novas experiências; e, por último, empoderar-se.  

A medalhista olímpica e jogadora de bocha, Evelyn Oliveira, se viu pela primeira vez como parte integrante da sociedade após iniciar seus treinos no SESI Suzano. Segundo a atleta, inúmeras oportunidades de experiências de vida foram perdidas. Foi alfabetizada pelos pais e só ingressou na escola aos 18 anos. “A inclusão há 20 anos era muito difícil”, comenta. No final de 2009, em uma visita ao shopping com a sua mãe, foi abordada por uma das professoras do SESI, que a convidou para conhecer as modalidades paralímpicas.

Evelyn Oliveira, medalhista de ouro das Paralimpíadas Rio 2016

 

“O que me motivou a querer ficar foi a chance de ter uma rotina diferente. Porque, até então, a minha vida era mais com a família. Vi uma oportunidade de ingressar na sociedade e fazer alguma coisa diferente, algo que eu poderia construir com as minhas mãos. O esporte transformou a minha consciência como cidadã. Eu comecei a perceber que posso fazer coisas que qualquer um pode, como sair e pegar o transporte público”, revela Evelyn.

Essa experiência foi tão importante em sua vida que a motivou a entrar na faculdade. Hoje em dia, formada em Publicidade e Propaganda e uma das principais atletas mundiais de sua modalidade, Evelyn acredita que, além de títulos e conquistas, “o mais importante é o que a gente pode transmitir para as pessoas”.

 

Um olhar voltado para a pessoa, suas qualidades e suas experiências

 

Casa da indústria, o SESI-SP também tem o compromisso de disseminar a cultura inclusiva em inúmeras empresas do Estado de São Paulo. Organizações como Coca-Cola Femsa, Ford, Minerva, Bombardier, Flex e Diebold já receberam a consultoria da instituição para promoverem a prospecção, contratação e integração de pessoas com deficiência em suas fábricas.

Criado, a princípio, para auxiliar o setor privado a cumprir as leis n° 8.213/91, que estabelece que as empresas devem ter um percentual de colaboradores com deficiência, e a n° 13.146/15, o Programa de Inclusão de Pessoas com Deficiência na Indústria vai além e propõe, sobretudo, a valorização da diversidade no mercado de trabalho. Um dos seus diferenciais é a possibilidade de customização das etapas, podendo ser personalizado conforme a necessidade da empresa, e envolvendo os diversos atores que fazem parte da disseminação da cultura inclusiva (gestores, colaboradores e os multiplicadores). Graças a essa característica, uma ampla gama de possibilidades pode ser ofertada, desde o diagnóstico da inclusão da pessoa com deficiência na empresa, a prospecção de candidatos, a capacitação dos gestores, sensibilização dos trabalhadores com dicas de convivência, cursos voltados ao papel pessoal e profissional das pessoas contratadas, até questões de cunho da medicina do trabalho, como laudos e análise de elegibilidade.

Segundo Maria Aparecida Bouchardet, gerente de Gestão e Educação Empresarial do SESI-SP, uma das principais dificuldades nesse tipo de trabalho ainda reside nas questões atitudinais e de falta de oportunidades. Soma-se o preconceito e o receio de que aquele profissional será um bom funcionário, capacidade essa que, sendo pessoa com deficiência ou não, é impossível assegurar para qualquer profissional no ato da contratação. Esses fatos, infelizmente, fazem parte das estatísticas e comprometem a contratação e o acesso da pessoa com deficiência no mercado de trabalho.

A gerente frisa que é preciso vencer a resistência, ampliar o olhar, proporcionar oportunidades e derrubar as barreiras atitudinais. “As pessoas com deficiência são capazes e demonstrarão sua autonomia. Receba elas e dê oportunidade para que exerçam seu papel em equidade de direitos com os demais colaboradores da empresa. Quando uma empresa decide contratar uma pessoa com deficiência, ela escolhe transformar a vida dessa pessoa, da sua empresa e da sociedade como um todo. A inclusão está ao alcance de todos”, afirma Maria Aparecida.

 

É tudo uma questão de direcionamento institucional

 

            Em uma instituição que atua nas mais diferentes áreas (Cultura, Educação, Saúde, Capacitação Profissional, Responsabilidade Social, Segurança no Trabalho, Esporte e Lazer), a tarefa de manter ações que, a princípio, podem parecer isoladas e dentro da caixa em um posicionamento real da marca no mercado, requer alinhamento e difusão dessa cultura nas práticas diárias da organização. De acordo com Alexandre Pflug, Superintendente do SESI-SP, a valorização do ser humano, em sua integridade, é a base da entidade e está registrada em seus valores.  

            Neste contexto, ainda segundo o superintendente, todas as ações têm como premissa a inclusão, em seu aspecto mais amplo. Ao fazer uma análise histórica sobre os projetos é possível perceber essa característica. O primeiro grande passo e quebra de paradigma foi o Meu Novo Mundo, no qual jovens com deficiência passavam três anos em treinamento com o SESI e indústrias madrinhas e, ao final do processo, eram contratados para trabalhar na empresa.

Grupo ADID de Teatro durante encenação de Noite de Reis.  A temporada de 2017 passou pelo teatro do SESI da Avenida Paulista
e nas unidades de Campinas, Piracicaba, Sorocaba e São José dos Campos.

 

O público do Teatro do SESI na capital paulista e de algumas cidades do interior também tiveram a oportunidade de ver de perto mais um projeto de valorização da diversidade: a apresentação de jovens com Síndrome de Down em diferences encenações. Em parceria de oito anos com a Associação para o Desenvolvimento Integral do Down (ADID) e seu grupo de teatro, esses atores circularam pelos palcos do SESI-SP em espetáculos como os shakespearianos Sonho de Uma Noite de Verão e Noite de Reis e o clássico de Victor Hugo, Os Miseráveis.

A ponteira Tifanny em jogo que garantiu a vaga para a semifinal da Superliga Cimed 2018/2019.
Foto: Divulgação SESC Rio

 

Para fechar a análise desse posicionamento pela diversidade, mais recentemente, o fato que ficou em evidência foi a contratação da jogadora Tifanny, mulher trans, para defender o SESI Vôlei Bauru.

“Social até em seu nome, o SESI-SP tem um olhar voltado para a indústria e seus funcionários, mas entende que apenas oferecendo oportunidades para que toda a sociedade possa se desenvolver é que será possível pôr em prática o plano de construir um País melhor e justo para todos. Valorizar a cultura inclusiva é entender que todos nós, ao seu modo e características, somos capazes de fazer a nossa parte, munidos de direitos, deveres e sonhos”, afirma Pflug.     

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